quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Cabana na Montanha

Ela tem o hábito incorrigível de dizer que nunca fomos felizes. Em suas vertiginosas elucubrações sobre meus maus-modos,  em suas crises abruptas de ciúme desenraizado, motivado por impressões errôneas, ou em suas crises constantes de mau-humor, ela tem o costume de desmerecer a vida que construímos juntos e afirmar a infelicidade a que foi imposta por meu amor mediano, morno e calmo. Diz-me que desejava tempestade quando, tudo que tem, é uma brisinha primaveril. E conclui, enrubescida de ódio e mágoa, que morrerás de amor pouco, quisera ter o ímpeto de sair pela porta e não voltar mais.

Houve um tempo em que eu redarguia, serenamente, que havíamos, sim, sido absolutamente felizes. Retocava cuidadosamente suas lembranças com as narrativas de uma viagem que fizemos, quando ainda éramos abastados de juventude e ávidos pela vida, para uma pequena choupana cedida por um tio meu, no alto de uma montanha do sul, cercada de árvores nativas e dos sons tímidos da mata. Era uma casinha miúda de madeira forte, reduzida a um cômodo e um singelo banheiro, decorada rusticamente com um sofá aveludado, uma estante de livros clássicos, uma mesinha também amadeirada e um tapete felpudo. Não tinha nada de requintado, mas ostentava deliberadamente aconchego e conforto.

"Sem título", de  s_a_smith (via flickr)


Costumava altivar suas reminiscências de como deitávamos no sofá, de corpos entrelaçados, quando o sol opaco do fim de dia atravessava a cortina de renda que enfeitava a janela de madeira para desenhar-se em nossa pele nua. Seus traços suaves, quase infantis, realçados de paixão doce, seus dedos matreiros brincando nos pelos embolados de minha barba, sua respiração fatigada do amor novo, baforando em meu peito despido, cheia de contentamento. Às vezes, adormecíamos dessa forma por horas, e só éramos despertados pelo vento frio que anunciava a noite. Ela levantava-se, de pelos eriçados, arrepiada, para fechar a janela, mas eu tomava seu corpo frágil entre meus braços e gastávamos algum tempo perscrutando o lençol de estrelas que cobria a floresta silenciosa. O vento flamulava a cortina, o frio tornava-se quase sólido e escondíamo-nos sob um cobertor xadrez para ler até dormir. Dividíamos o mesmo livro e lembrava a ela o quanto aborrecia-se por minha leitura ser um tanto mais lenta que a dela, o que sempre a fazia esperar alguns minutos até poder virar a página. Mas já não ria dessa lembrança, nem de nenhuma outra; tudo a aborrecia. "Nunca fomos felizes", repetia, "Nunca".

"Good Things",  de Erica Elan (via Flickr)

Recorria, então, à mais vívida das noites naquela cabana, quando penduramos um varal de lâmpadas na varanda de madeira, preparamos uma quantidade infindável de comida e abastecemos as taças com o mais fino cabernet. As luzes das lâmpadas cintilavam nos olhos dela, que começavam a embaçar-se do vinho, e nunca, dentre todos os anos em que vivemos juntos após aquela noite, nunca ela fora tão linda. "É o nosso varal de estrelas", ela disse, abobada pelo álcool, olhando para as luzes feito uma inocente criança. "Amo você. Agora tenho certeza". Prometi-lhe amor também e ela se aconchegou no meu colo, onde permanecemos no que pareceu um tempo infinito.

Nada disso, entretanto, tem agora qualquer valor para ela. Em suas definições de felicidade, cuja compatibilidade com as minhas tornou-se inexistente, não cabe mais o calor proporcionado pelos meus braços. Aos poucos, a erosão do tempo consumirá todas essas lembranças e, num negrume irrevogável, haverá apenas nós, abraçados, sob o nosso varal de estrelas. Até que as lâmpadas apaguem-se, uma a uma, pelo esquecimento do que outrora fora genuína felicidade.

"Birthday Party" (editada), de Annie Campbell
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