sábado, 26 de maio de 2012

O Ranzinza Urso-Cinza - Hibernação

Havia algo no ar daquela manhã. Quando Cinzento acordou e se espreguiçou, suas patas enormes esticadas em direção ao céu muito azul, um ventinho insistente atingiu-lhe a nuca, fazendo os espessos pelos acinzentados do seu corpo bolachudo arrepiarem. Sonolento, dirigiu-se lentamente ao grande lago para beber água, e logo percebeu que havia algo diferente ali também: uma bruma fininha esticava-se por toda a extensão das águas cristalinas, feito um lençol fantasmagórico bailando sobre o lago. Cinzento franziu o cenho, acometido de indagações várias, e seus olhos caramelos perscrutaram os bordos que cercavam o lago, maravilhados. Já era tempo.

Serpenteando serelepe entre os galhos duma das grandes árvores, os pezinhos ágeis como os de Hermes, a cauda felpuda flamulando na brisa matinal, o esquilo Danilo aproximou-se, seus olhos esbugalhados e curiosos esforçando-se para compreender o que deixara Cinzento ali, estático, à beira do lago.

Cincento! — chamou o roedor do alto de um dos galhos, parando repentinamente. Por causa dos dentões, que sequer cabiam-lhe na boca, tinha uma forma jocosa e um tanto úmida de falar, sua vozinha fina e desafinada. — Cincento, amigo, fala comigo! Que focê tem? Sente-se mal? Quer que eu te lefe para caça? Focê sabe que... 

— Shhh — o urso silenciou-o, os olhos ainda voltados para os bordos. 

— ... e, embora focê esteja deferas gordo, focê sabe, amigo, eu sou forte, não preciça se preocupar, eu te carrego, apenas diga o que está acontecen-...

— Quieto, Danilo! —urrou Cinzento, diante da tagarelice. — Quieto, aí vem ele. 






Assobiando baixinho à distância, avançando invisivelmente veloz pelos vales, balançando as árvores e fazendo-as bailar com elegância e sincronia, o vento vindo do sul espalhou-se por toda a floresta. Sua melodia serena podia ser ouvida quando ele passou sorrateiro por Cinzento e Danilo de encontro aos bordos, acariciando seus galhos mais altos e surrupiando suas folhas douradas. Plainaram no céu azul, as folhas muito amareladas e secas, num turbilhão áureo e confuso que acabou por amarelejar todo o grande lago. 

— Santa Afelã Madura, a chufa de folhas douradas! — exclamou o esquilo Danilo, estupefato, os olhos vidrados do alto do galho no grande borrão amarelo em que havia se tornado o lago. 

— Exatamente, meu caro amigo dentuço. E tu sabes o que isso significa, não sabe? — perguntou Cinzento, com certa excitação na voz grave. 

O roedor espiralou em torno do tronco do bordo e aterrissou no ombro do amigo. 

— Por fafor, Cincento, meu coraçãossinho não fai suportar oufir-te dicer que... 

— Então um infarto o aguarda, roedor-de-nozes, pois ouça com todas as letras: hibernação, aí vou eu! 

Danilo, shakespereanamente, levou a mão ao minúsculo peito peludo, um Hamlet de trinta centímetros numa encenação ao ar livre. Cinzento deu as costas, embora ainda pudesse ouvir as lamentações teatrais do amigo: 

— Como podes ficar contente neste triste período do ano? Quando só nos feremos nofamente na primafera, Cincento? Seis messes, Cincento, seis messes — as pálpebras palpitando, os olhos aguados. 

— É isso que me deixa feliz, oras. Seis meses longe da sua tagarelice, das presepadas do Alce Alceu, das bisbilhotices da Coruja Corina... 

— Mas amamos focê, Cincento — uma pontinha de desespero podia ser notada na quantidade de saliva que umedecia suas palavras. 

— Adeus, Danilo. Vemo-nos na primavera. 

E o pequeno esquilo ficou ali, acenando com os dedinhos curtos, desolado. 

Cinzento gastou o resto daquela manhã fria pescando à beira de uma corredeira que desembocava no grande lago. Sua agilidade para pescaria nunca fora das melhores: posicionava o corpo robusto numa pedra e, de olhos atentos, esperava os peixes se aproximarem para agarrá-los com suas garras afiadas. Quando havia pescado o que achava suficiente, amarrou-os em forma de cacho com um cipó e pendurou sobre os ombros, uma quantidade de dar inveja aos outros animais que também faziam sua cota de mantimentos para o rígido inverno. Juntou aos peixes um favo de mel e algumas frutinhas colhidas e sentiu-se preparado para a maratona de sono profundo que estava por vir. 

Mantinha, no alto de uma montanha, a caverna na qual tinha o hábito de hibernar. Era uma subida lenta e demorada, acentuada por obstáculos como pedras e troncos de enormes árvores, mas Cinzento subia de bom grado, sabendo da recompensa que lhe aguardava lá no cume: a paz da inexistência de contato social pelos próximos muitos meses. 

Quando alcançou o topo da montanha, depois de horas de caminhada esforçada, o sol já sumia lentamente no horizonte, tingindo o céu dum tom alaranjado que se refletia sobre toda a floresta. Cinzento apreciou a vista por um instante, enquanto tomava grandes quantidades de ar que faziam suas narinas vibrarem, o peito forte inflando e desinflando em ritmo frenético. Pôs-se, em seguida, em direção à caverna, notando de imediato que a pedra oval — que usava para tapar a entrada do seu recanto de inverno quando não se encontrava lá — estava ligeiramente movida para o lado. Intrigou-se por um mísero instante, mas o cansaço era grande demais e, terminando de rolar a pedra, adentrou a caverna. 

Aparentemente, tudo se encontrava como havia deixado à primavera passada, quando o desabrochar das flores e o cessar do frio intenso anunciaram o fim do período de reclusão. Cinzento depositou toda a comida num dos cantos da caverna. Dominado por uma sonolência incontrolável, aconchegou-se à pedra que lhe servia de cama, tapando o corpanzil com um cobertor amarelo puído que, certa vez, um grupo de humanos que acampara na floresta havia deixado para trás. Era bem verdade que o manto mal lhe cobria as pernas, mas não se importava com isso; dado alguns minutos, o urso-cinza dormia profundamente. 

Já era madrugada quando ouviu pela primeira vez aquele barulho, um ronronar forte e contínuo que o despertou dos sonhos com campos gramados e céus azuis. Coçou a orelha peluda com as garras, num bocejo eloquente, e, atordoado, pôs-se de pé a procurar de onde vinha aquele ronco. A caverna estava precariamente iluminada pelo brilho prateado da lua, que invadia o recinto por um buraco no teto, e, com dificuldade para atravessar o estreito corredor que levava à caverna adjacente – seu bumbum avantajado quase o deixou preso no meio das pedras pontudas –, foi ouvindo o ronco cada vez mais forte e próximo. Um tênue fio de medo bambeou seus passos pesados, as pernas tremeram, e, quando o ronco tornou-se ensurdecedor... 

— Ei, o que pensas que estás fazendo na minha caverna? 

O ronco cessou de súbito, ela acordou assustada, levantando-se e apoiando na parede da caverna . Era uma ursa-parda jovem e elegante, com um grande laço amarelo no topo da cabeça, de olhos cor-de-avelã, arregalados pelo susto, e de pelo sedoso e brilhante à luz serena da lua. 

— Que isso? Já chegou a primavera? Por que parece que eu acabei de começar a hibernar? 

— Não, não chegou a primavera – bramiu Cinzento, irado. – Apenas quero saber o que a senhorita está fazendo na minha caverna, roncando feito um búfalo. 

— Sua caverna? – os sentidos voltavam aos poucos ao passo que a delicada ursa recuperava as lembranças dos últimos acontecimentos. – Mas quando cheguei aqui não havia ninguém. 

— Não interessa. Havia uma pedra obstruindo a entrada. Isto é invasão de propriedade privada. 

— Ei, ei, abaixa a sua bola, esquentadinho. – Ela sentou-se novamente, o laço a oscilar diante do ventinho frio que entrava pelas frestas da caverna. – Vamos recomeçar, está bem? Chamo-me Eduarda e parece que serei sua companheira de caverna durante essa temporada. Que tal? 





Cinzento parecia não acreditar no imbróglio que se sucedia. Colocou as mãos na cintura, a carranca demonstrando a ira que se apoderava lentamente dele. 

— Meu nome é Cinzento e EU NÃO COMPARTILHO MINHA CAVERNA! Anda, pega tuas coisas e vá procurar sua própria caverna. 

Eduarda sorriu, zombeteira, como se as ordens do urso-cinza que acabara de conhecer fossem as coisas mais estapafúrdias que já havia ouvido. 

— Olha aqui, fofinho – e quando digo fofinho, sabe a quê estou me referindo, não é? – acrescentou ela, fazendo com as patas uma forma circular no ar —, está frio lá fora, meu organismo está lento por causa da hibernação e estamos no topo de uma montanha. Quais são as chances que você vê de, no meio da madrugada, eu sair para procurar outro lugar para hibernar? – Cinzento abriu as mandíbulas irritadas, pronto para fazer suas objeções. Contudo, ela foi mais rápida: — Não sei o motivo de tanta rabugice, mas acho sensato você voltar para a sua caverna, como um bom ursinho, e começar sua hibernação. Estamos perdendo tempo precioso!

Eduarda encolheu-se no chão, as patas muito felpudas servindo-lhe de travesseiro, e cerrou os olhos. Ainda soltou um “Boa noite” quando, contrariado, resmungando palavras indignadas, Cinzento retornou para sua caverna — não antes de, novamente, quase ficar preso pelo traseiro no corredor estreito.




Alguns dias depois, registrou-se a primeira nevasca do ano. As temperaturas despencaram vigorosamente e a neve que agora cobria o cume da montanha transformou a caverna numa pequena amostra da Antártida. 

Cinzento foi subitamente tirado de sua hibernação por uma cutucada insistente no seu ombro esquerdo. “Pare com isso, Danilo, sai do meu ombro!”, ele murmurou em meio ao sono, mas, ao despertar, encontrou dois olhos com cílios avantajados a sondá-lo. 

— O que queres? – ele balbuciou com os cantos do lábio, escondendo a cabeça sobre as patas brutas. 

— A minha caverna está geladíssima, a neve está entrando pelas frestas na pedra. 

— E o que tenho com isso? Deixa-me dormir, ursa. 

— Só queria avisá-lo que ficarei aqui, com você, por medida de emergência. 

— O quê? 

Aquela não era a hibernação com que Cinzento havia sonhado. A ursa-parda havia trazido sua pouca reserva de comida e colocado junto com os alimentos dele e já se acomodava no canto posterior para voltar a hibernar. Percebera, entretanto, que arguir contra era perda de tempo. Eduarda era decidida e não se acovardava diante das caretas ranhetas que ele fazia como costumavam os animais da floresta. E, além disso, que mal havia, afinal, em um pouco de companhia, de compartilhar um pouco de oxigênio e espaço da sua caverna? Talvez estivesse sendo um pouco exagerado na sua vontade pungente de ficar só. Decidiu que não se importaria mais. Apenas voltaria a hibernar, como se estivesse realmente sozinho. 

Durante a noite, a tempestade de neve tornou-se ainda mais forte. Era possível ouvir, do interior pedroso da caverna, o vento assobiar alto, não mais a canção serena que causou a chuva de folhas douradas, mas um grito potente e alvo de neve e gelo. Cinzento ouviu um tilintar de dentes angustiado e seus olhos depararam-se, com dificuldade, na escuridão da caverna, com Eduarda contorcendo-se de frio, tremendo das orelhas à pontinha do rabo em forma de pompom. Ele estava quente e confortável, e certa complacência apoderou-se de suas atitudes, outrora egoístas e individualistas. Tomou a cobertinha amarelada, cobriu o corpo de Eduarda e deitou-se ao seu lado, passando seus braços fortes em torno do corpo dela. A ursa-parda abriu os olhinhos cansados, a temperatura do seu corpo elevando-se. 

— Ei, Senhor Rabugento, o que pensa que está fazendo? 

Cinzento sorriu, o hálito dela bem pertinho de suas narinas. 

— Evitando que vires picolé, Senhorita Irritante. 

Eduarda ajeitou a cabeça no colo de Cinzento e, por um mísero segundo, seus narizes encostaram-se, o que fez o urso arregalar os olhos, o coração palpitando rápido, os sentidos aguçados, a respiração ofegante. O sol brilhou forte, iluminou toda a extensão da caverna, aqueceu seus corpos e derreteu toda a neve. Margaridas desabrocharam em torno deles, violetas, tulipas e crisântemos, uma explosão multicolor, uma mistura intensa de perfumes. 

O frio estava extinto, a hibernação adiada; não houve inverno aquele ano. Pelo menos não na caverna de Cinzento. 




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Toda a arte desta postagem foi feita pelo meu amigo Vitor Martins. Você pode ver mais das suas ilustrações incríveis no seu flickr. e no blog mars' medicine.


Muito obrigado pela colaboração, amigo.

2 comentários:

Vitor disse...

Muito amor pelo Cinzento.

Aline disse...

Só agora que eu li os 2 textos do Cinzento, que vergonha :$ !!! Amei a história, e pensa logo na continuação, quero ler mais sobre o Ranzinza. Ah, o Danilo é um FOFO!!!! Beijinhos.